O décimo terceiro Apóstolo?

Naquele tempo, 17 quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante d’Ele, e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18 Jesus disse: “Por que Me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19 Tu conheces os Mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20 Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21 Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me!” 22 Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23 Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” 24 Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas Ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25 É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26 Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27 Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”. 28 Pedro então começou a dizer-Lhe: “Eis que nós deixamos tudo e Te seguimos”. 29 Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de Mim e do Evangelho, 30 receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10, 17-30).

XXVIII Domingo Do Tempo Comum

Aquele que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de
Nosso Senhor, retirou-se de sua presença triste e abatido. Preferiu
conservar seus bens terrenos, desprezando — fato inédito no
Evangelho — o “tesouro no Céu” oferecido pelo próprio Deus.

Comentário ao Evangelho Dominical. Por Mons. João S. Clá Dias, EP

Fomos criados com uma vocação

Desde toda a eternidade, esteve prevista na mente divina a criação, no tempo, de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Homem e de sua Mãe, Maria Santíssima.

Mas Deus não concebeu ambos de forma isolada. Queria Ele que, à maneira de uma corte, houvesse quem Os servisse. Todos nós estávamos incluídos neste ato de pensamento e fomos amados por Ele, como foi revelado a Jeremias: “amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor” (Jr 31, 3).

Nosso Senhor é o modelo tomado por Deus para a nossa criação, é Ele a nossa causa exemplar. Havendo de tornar possível, por seus méritos, a nossa existência enquanto filhos de Deus ― pois “todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1, 16) ― constitui-Se em nossa causa eficiente. E, por termos sido criados para servi-Lo e adorá-Lo, é também a nossa causa final.

Fomos, em suma, concebidos em, por e para Jesus, pois “n’Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, Dominações, Principados, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” (Col 1, 16).

Isto configura um chamado feito a nós desde todo o sempre, tal como afirma o Apóstolo: “Deus nos salvou e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio, da graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus” (II Tim 1, 9). Deus nos convida a fazer parte da Santa Igreja, e nos chama à santidade. No entanto, junto com este apelo genérico, somos chamados a exercer uma função específica dentro do Corpo Místico de Cristo. É uma missão particular que cada um tem e não será dada a mais ninguém.

O Novo Testamento nos apresenta inúmeros exemplos, no chamado feito pelo próprio Jesus aos escolhidos para serem seus Apóstolos: vê Mateus na coletoria de impostos e lhe diz: “Segue-Me” (Mt 9, 9); no caminho de Damasco, São Paulo é lançado por terra e, ao ouvir a voz que o interpelava, responde: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6); cheio de pasmo após a pesca milagrosa, Pedro se prosterna diante do Mestre, exclamando: “Retira-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5, 8), e escuta a divina promessa: “doravante, serás pescador de homens” (Lc 5, 10).

Tal como Mateus, Paulo ou Pedro, que tudo abandonaram imediatamente para seguir este Mestre, precisamos responder com prontidão, generosidade e alegria ao chamado que Jesus faz a cada um de nós. Este é o ensinamento contido no Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum.

A causa mais profunda da recusa

No caso que nos é apresentado neste Evangelho – o do moço rico – vemos que este chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso Senhor, retirou-se triste e “abatido”, porque “era muito rico”, e preferiu conservar seus bens a seguir sua vocação, desprezando o “tesouro no Céu” que o próprio Messias lhe oferecia. Fato inédito, pois os evangelistas não narram recusa semelhante a esta.

Não pensemos, porém, ter sido o apego às riquezas a principal causa de sua defecção. O jovem rico praticara os Mandamentos desde a sua infância, mas não na perfeição. Negligenciara, de modo especial, o primeiro e mais fundamental: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). Como bem comenta o conhecido e mencionado biblista Lagrange, os preceitos mencionados a ele por Nosso Senhor “bem podem ser observados sem heroísmo. Se Jesus lhe tivesse perguntado se amava a Deus de todo o coração, teria ficado bem mais embaraçado”.

O grande pecado deste homem não foi de avareza, e sim de orgulho. Ao ser convidado a seguir Nosso Senhor e sentir em si a própria debilidade e insuficiência, deveria ter dito: “Senhor, não tenho forças para Vos seguir. Tenho apego às minhas riquezas e, sobretudo, falta-me um amor exclusivo por Vós”.

Perante tal ato de humildade, Jesus lhe teria dado graças superabundantes para corresponder ao chamado. E bem poderíamos ter hoje no Calendário Romano uma festa dedicada ao jovem rico, que se tornou pobre para adquirir uma riqueza muito maior: ser o décimo terceiro Apóstolo!

Não obstante, faltou-lhe reconhecer que, se praticava os Mandamentos, não era por suas forças pessoais, mas pela graça divina. E que sem o auxílio da graça não conseguiria desprezar as riquezas e seguir Jesus.

Uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual

Somos todos “participantes da vocação que vos destina à herança do Céu” nos chama a segui-Lo a caminho do Reino de Deus, as (Hb 3, 1). Contudo, enquanto Jesus nossas tendências desordenadas, em consequência do pecado original, nos arrastam para aquilo que é inferior.

Exemplo paradigmático desta dicotomia é o episódio do Evangelho que acabamos de comentar. O jovem rico era bom. Praticava os Mandamentos a ponto de Nosso Senhor o fitar com amor. Quando, porém, o Mestre o convidou a ser um dos seus discípulos, se afastou triste e abatido, pois sempre que alguém recusa um convite da graça é pervadido pela tristeza e pelo remorso. O padre Duquesne descreve com notável clareza esta lamentável situação de alma: “Ninguém renuncia à sua vocação sem uma dor de coração, sem uma secreta tristeza que increpa sua covardia: tristeza que difunde amargura ao longo de todo o curso da vida e aumenta na hora da morte”.

A Liturgia deste domingo nos coloca diante de uma pergunta decisiva para nossa vida espiritual: a que distância se encontra nossa alma da atitude do moço rico? Se Cristo nos convidasse hoje a segui-Lo, como Lhe responderíamos? Bradaríamos com alegria, como Samuel: “Præsto sum — Eis-me aqui” (I Sm 3, 16)? Ou, tomados pela tristeza, recusaríamos o convite de nosso Salvador?

Quando chegar este chamado — e ele pode vir em hora inesperada —, seremos muito mais capazes de dar resposta afirmativa se nos tivermos preparado de antemão. Para isso, é necessário que, em todas as circunstâncias da vida, nosso coração esteja à procura do Divino Mestre, combatendo o apego aos bens terrenos, aumentando sem cessar o fogo do amor a Deus e fazendo a pergunta de São Paulo no caminho de Damasco: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6).

A isto nos incita o Príncipe dos Apóstolos: “Irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pd 1, 10-11). ♦️


Excertos de “O Inédito sobre os Evangelhos”, Vol. IV. Ano B.

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