O verme roedor da inveja

XXV Domingo do Tempo Comum

Veneno que corrói as almas, a inveja ainda é pior quando se revolta contra os favores espirituais concedidos por Deus ao próximo. A este vício moral se dá o nome de inveja da graça fraterna

Monsenhor João S. Clá Dias, EP. Fundador dos Arautos do Evangelho e do Apostolado do Oratório

A figura da vinha

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:
1 “O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu
de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e
os mandou para a vinha”.

Ao contrário do que em geral se supõe, a região na qual hoje se incluem a Palestina e Israel era, no tempo de Nosso Senhor, extremamente fértil. O panorama muitas vezes árido e desolador de nossos dias é resultante de dois mil anos de lutas e arrasamentos. Mas ali, de fato, era um país onde, além de correr o leite e o mel (cf. Nm 13, 27) e produzir ótimo azeite, cultivavam–se excelentes vinhas, conforme no-lo atestam as Sagradas Escrituras (cf. Nm 13, 23-24), certamente sinal de bênção de Deus.

No trabalho da vinha, utilizavam-se dois períodos do ano: o começo da primavera e o outono. O primeiro para deixá-la pronta para o florescimento e o outro para a colheita. Para ambas as ocasiões se necessitava um bom número de trabalhadores extras, pois poucos eram permanentes. Por isso vemos, na parábola em questão, o pai de família ir à procura dos operários, contratando uns por necessidade e outros pelo puro desejo de lhes oferecer um meio de ganhar algo.


3 “Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros
que estavam na praça, desocupados, 4 e lhes disse: ‘Ide também
vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. 5 E
eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da
tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas
da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse:
‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ 7 Eles responderam:
‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós
também para a minha vinha’. 8 Quando chegou a tarde, o patrão
disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes
uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’
9 Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada
um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida vieram os que
foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais.
Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata”.

As horas de trabalho eram divididas em quatro partes de sol a sol, ou seja, de três em três horas, das seis da manhã às seis horas da tarde. Entretanto, nesta parábola, os últimos trabalharam tão só das cinco às seis horas da tarde, constituindo um quinto grupo. O salário, como é óbvio, era o contratado.

A explicação

11 “Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra
o patrão: 12 ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os
igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.
13 Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto
contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Toma o que é
teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por
último o mesmo que dei a ti. 15 Por acaso não tenho o direito de
fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com
inveja, porque estou sendo bom?’”

Uma boa explanação sobre esta parábola, dada com a clareza, concisão e objetividade próprias ao estilo francês, é de autoria do conhecido exegeta Louis Claude Fillion. Segundo ele, vários são os comentaristas dos Evangelhos concordes em que, nas parábolas, há circunstâncias cuja função é apenas de ornamento. No presente caso, muitos comentadores tropeçam na análise, ao forçar uma interpretação de cada detalhe.

Tendo isto em vista, Fillion procura apontar a ideia dominante na parábola: “Parece ser que Deus, figurado no proprietário rico, cumpre fielmente suas promessas para os que O servem, e que a todos dá, sem exceção, em qualquer ponto da vida em que tenham começado seu trabalho, uma justa recompensa de todas as suas fadigas”.

Contudo, esse homem reparte seus dons na proporção que lhe apraz. Para vários exegetas, aqui reside a principal dificuldade da parábola: à primeira vista, pareceria uma injustiça o senhor da vinha pagar o mesmo salário tanto para os que trabalharam mais, como para os que menos o fizeram.

Fillion ressalta que, na narrativa, ninguém foi esquecido na hora da distribuição, de forma que não há motivo para queixas. São Tomás é do mesmo parecer: “Quando se dá gratuitamente, cada um pode dar livremente a quem quer, mais ou menos, contanto que não recuse a ninguém o que lhe é devido; e isto sem prejuízo da justiça”. Voltando a Fillion, completa ele seu raciocínio com uma sentença da maior importância, sobre a qual voltaremos adiante: “Cada um deve se satisfazer com o recebido e demonstrar reconhecimento, sem olhar com vista invejosa os que ganharam mais”.

O chamado de Deus

16a “Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os
últimos”.

Ao terminar o comentário, o autor francês aponta outra relevante lição da parábola: “Não são todos que começam a trabalhar em sua salvação e santificação na mesma época de sua vida. Alguns o fazem na primeira hora, a infância; outros, na juventude; outros ainda, na idade madura; e alguns iniciam quando já se manifestam os sinais precursores da morte. Felizes os operários da primeira hora, que só tenham vivido para Deus!

Felizes também aqueles que, tendo ouvido em qualquer época da vida o chamado da graça, correspondem a ele e acorrem para junto de seu Salvador, a fim de trabalhar com Ele e para Ele!”.

Conforme dizíamos no princípio deste artigo, Jesus preparava com suas pregações, nesta fase, o chamado a seus seguidores futuros. Deus, tal como consta nesta parábola, chama todos à perfeição, apesar de o fazer em horas e ocasiões diversas da vida. Ninguém deve desanimar, se tiver deixado para muito tarde o preocupar-se com sua salvação, pois para todos a misericórdia de Deus reserva um prêmio. No entanto, também é necessário atender logo à convocação de Jesus, de maneira decidida. Nenhum dos chamados ao trabalho, nesta parábola, chegou a propor um horário mais tardio, mas imediatamente se pôs a trabalhar. Nenhum também recusou. Assim devemos proceder nós: não devemos retardar o nosso sim ao chamado do Mestre.

A inveja, “cárie dos ossos”

Como vimos, Fillion recrimina a inveja nascida no coração de alguns trabalhadores da vinha. Com efeito, esta parábola traz um ensinamento a propósito da inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja.

No que consiste tal vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”. Não é difícil perceber como este vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo padre Royo Marín, “é o apetite desordenado da própria excelência”. A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”, faz questão de sublinhar o dominicano.

São Tomás recolhe, entre os diversos comentários desta passagem contidos na Catena Aurea, o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na recompensa à qual tinham direito, e sim porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.

Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias. Basta lembrar a história de José do Egito. Diz a Escritura: “Foi por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa Terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).

Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir deste vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.

A recompensa demasiadamente grande

Aqui nesta Terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen — Na tua luz veremos a luz” (Sl 35, 10). Nossa inteligência participará do lumen gloriæ — luz da glória — de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos, daí, na nossa parábola, ser o salário o mesmo para cada um dos operários da vinha.

Mas um salário que cumulará a todos de indizível felicidade, pois, como disse Deus: “tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá chegarmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja.


O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano A. Vol. II.

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