A palavra de Jesus é viva e eficaz

XV Domingo do Tempo Comum

A todo propósito, Deus lança com abundância em nossas almas a
semente de sua palavra. Compete a nós fazê-la frutificar para a
maior glória do Criador

Mons. João S. Clá Dias, EP
Fundador dos Arautos do Evangelho
e do Apostolado do Oratório

 

 

Uma parábola rica de significados

1Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se às margens
do Mar da Galileia. 2Uma grande multidão reuniu-se em volta
d’Ele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-Se, enquanto a
multidão ficava de pé, na praia.

Cada pequeno detalhe deste trecho é denso de significado e de superior beleza. O Mestre sai de sua casa em Cafarnaum — como gostaríamos de conhecer esta casa! — e vai para a praia. O Mar da Galileia deveria estar sereno, sem o rumorejar das ondas, possibilitando que a voz de Cristo fosse ouvida com facilidade pela multidão disposta ao longo daquele anfiteatro natural. Tudo de uma grandiosa simplicidade, de tal forma que se esta barca tivesse sido preservada, mereceria sem duvida ser venerada em uma catedral-relicário. Maravilhoso é o cenário preparado para este solene momento: é Deus quem vai falar!

Os diferentes terrenos

3 E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para
semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do
caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5Outras sementes
caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6Mas, quando o Sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente.
9Quem tem ouvidos, ouça!”

Para atrair a atenção dos presentes, Jesus utiliza uma imagem acessível àquela sociedade dedicada à agricultura e ao pastoreio: a do lavrador que saiu para semear. Diferente de hoje, em que as sementes são espalhadas de modo automático por meio de máquinas em enormes plantações, naquela época tudo era feito à mão: o agricultor levava um saco de sementes e as lançava pelo terreno.

Na sugestiva parábola, algumas delas caem pelo caminho, outras em terreno pedregoso, ou ainda entre espinhos, figurando as diversas maneiras de se receber a pregação da palavra divina, como adiante o Senhor explicará aos seus mais próximos.

A necessária abertura em relação à palavra semeada

10Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que falas
ao povo em parábolas?” 11 Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado
o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não
foi dado. 12 Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em
abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que
tem. 13 É por isso que Eu lhes falo em parábolas: porque olhando,
eles não veem, e ouvindo, não escutam, nem compreendem.
14Desse modo, se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de
ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. 15 Porque
o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má
vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem
ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo
que se convertam e Eu os cure’”.

A respeito dessa indagação dos discípulos sobre a forma de o Senhor proceder em suas pregações, muito esclarecedor é o comentário do Doutor Angélico: “Cristo ensinou algumas coisas ocultamente, servindo-Se de parábolas para falar de mistérios espirituais, porque os ouvintes ou não eram capazes ou não eram dignos de os entender. Ainda assim, era melhor para eles ouvir a doutrina espiritual sob o manto das parábolas do que serem dela inteiramente privados. Mas aos discípulos o Senhor expunha aberta e  claramente a verdade das parábolas a fim de que, por eles, chegasse aos que fossem capazes”.

Nosso Senhor faz referência à má vontade dos ouvintes cujos corações se tornaram insensíveis, e adverte: quem não corresponde às graças ou o faz de maneira incompleta pode até perder aquilo que tem, por não mais ser digno dos favores do Céu, como seria, por exemplo, naquele momento a explicação desta parábola. Pelo contrário, quem é humilde, diligente e fervoroso recebe renovadas graças para aumentar sua compreensão e com isso poder amar ainda mais. Em consequência, atrairá dons sobrenaturais cada vez maiores, num processo ascensional da vida espiritual.

Portanto, quem não exercita sua fé, seu amor a Deus e seu conhecimento das coisas divinas, ou seja, quem não avança rumo à perfeição, acaba perdendo até aquele pouco que lhe resta!

E o Divino Mestre faz referência ao trecho de Isaías do qual se deduz a necessidade de ver, ouvir e entender “com o coração”. Ou seja, não basta compreender racionalmente, é preciso, sobretudo, amar.

A bem-aventurança de conviver com Jesus

16 “Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos
ouvem. 17 Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram
ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não
ouviram”.

Nosso Senhor declara bem-aventurados os Apóstolos, pelo fato de terem recebido uma graça que aos patriarcas, aos profetas e aos justos da Antiga Lei não foi concedida: a de ver e ouvir o Salvador.

Devido a sucessivas infidelidades à sua vocação, o povo eleito acabou criando ao longo dos séculos uma série de doutrinas e interpretações completamente equivocadas a respeito do reino do Messias, segundo as quais a Redenção prometida por Deus se efetuaria pelo estabelecimento da tão almejada supremacia de Israel sobre os demais povos da região. Levados por essa visualização errônea, inúmeros judeus tiveram oportunidade de ver e ouvir Jesus, mas ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração.

Aos Apóstolos, contudo, o próprio Messias concedeu a inestimável ventura de explicar-lhes amorosamente tudo a respeito do Reino, como no caso da parábola do semeador. Por essa razão, São Jerônimo congratula-se com eles nestes termos: “Abraão viu em enigma, em aparências, vós porém tendes vosso Senhor, O interrogais à vontade, e comeis em sua companhia”.

O perigo do endurecimento de coração: uma fé fraca

18 “Ouvi, portanto, a parábola do semeador: 19 Todo aquele que
ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o maligno
e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi
semeado à beira do caminho”.

Na beira do caminho não encontramos uma terra arada, preparada para receber a semente, mas, pelo contrário, um solo duro e estéril. Quando o grão cai num local assim, nada produz, e acaba servindo de alimento aos pássaros.

Isso é o que ocorre com as almas que deram as costas a Deus e apegaram-se desordenadamente às criaturas. Nesses pecadores o coração fica endurecido como a terra batida pelos passos dos caminhantes; sua fé torna-se insuficiente, a palavra divina não penetra no interior deles, porque a ouvem com displicência, “como se nada tivessem a ver com o que se diz: não entram em seu coração, não examinam seus costumes, não refletem se porventura aquilo tenha sido dito para eles”. Esses estão despreparados para aproveitar as palavras de Deus.

A superficialidade impede a palavra de vingar

20 “A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve
a palavra e logo a recebe com alegria; 21mas ele não tem raiz
em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a
perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo”

Outras sementes caíram entre os pedregulhos e chegaram a germinar, mas as plantas não conseguiram formar raízes, por insuficiência de terra, e logo secaram. Esse terreno representa a inconstância de coração, a superficialidade de espírito daqueles que ouvindo a palavra de Deus, por vezes até com verdadeiro encanto, logo se distraem com alguma banalidade. Em tais almas, as graças recebidas, não conseguem se arraigar.

Quando começamos a trilhar as vias da virtude, em geral, por especial misericórdia divina, os primeiros momentos são acompanhados de grandes graças sensíveis que nos enchem de entusiasmo e encanto. Mais tarde, entretanto, o vento das provações nos sacode e a aridez nos invade. Trata-se então, uma vez que ouvimos e compreendemos a palavra, de continuarmos firmes no caminho, enfrentando a tempestade interior, agindo durante a insensibilidade como se estivéssemos no tempo da consolação. Nisso consiste a fidelidade à palavra de Deus.

O apego às coisas do mundo asfixia a palavra

22 “A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve
a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza
sufocam a palavra, e ele não dá fruto”.

Os espinhos representam o apego ao dinheiro e aos bens deste mundo. Todo homem, afirma Bento XVI, “tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus”. Se a alma não se volta para Deus — o único que a pode satisfazer por inteiro —, essa apetência se desvia para as riquezas materiais que nunca preencherão seu anseio do Absoluto. Bem a propósito nos adverte São Gregório Magno, a respeito dessas ilusórias riquezas: “são enganosas porque não podem permanecer muito tempo conosco; são enganosas porque não podem acabar com a pobreza de nossa alma”.


Assim sendo, quem tem desproporcionada preocupação com os bens materiais, a ponto de preferi-los aos valores sobrenaturais, está pronto para sufocar a palavra divina. É, por exemplo, o defeito daquele que se esforça apenas em cuidar de seus negócios. Quando recebe a palavra, no primeiro momento sente-se por ela atraído, mas logo se deixa absorver por completo pelo apego ao mundo. Como sua atenção está centrada na posse dos bens terrenos, e não na sua própria santificação, os espinhos das ambições mundanas crescem e sufocam a palavra. Essa é a semente que cai no espinheiro do apego ao dinheiro. Nada produz!


A palavra bem recebida

23a “A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra
e a compreende. Esse produz fruto”.

A semente que caiu em terra boa e se desenvolve é figura daquele que ouve a palavra de Deus com entusiasmo e depois toma a decisão séria de mudar de vida, abandonando o pecado, a superficialidade de espírito e os apegos desordenados; ou seja, rompe de fato com tudo quanto significa terra endurecida, pedregulho ou espinho, e entrega-se completamente à prática da virtude. Esse, sim, produz todos os frutos!

Ensina-nos São Tomás que os ouvintes da palavra de Deus devem ser humildes, à semelhança da terra, e também firmes pela retidão de espírito; devem do mesmo modo ser fecundos como a terra, para que neles frutifiquem as palavras recebidas da sabedoria. Requer-se humildade para ouvir, integridade para julgar aquilo que se ouviu, e fecundidade para tirar muitas consequências das poucas coisas ouvidas.

Um consolo para o apóstolo

23b “Um dá cem, outro sessenta e outro trinta”.

O Divino Redentor faz questão de frisar a diversidade de frutificação da semente da palavra nas almas: trinta, sessenta e cem por um. Uma demonstração a mais de que Deus tudo cria em hierarquia. Uns são chamados a dar trinta, de outros o Senhor exigirá cem, ou talvez mais, conforme a quantidade de dons concedidos a cada um. “A quem muito se deu, muito se exigirá” (Lc 12, 48), adverte-nos o Divino Mestre.

Isso não nos deve atemorizar. Pelo contrário, o fundamental é termos confiança no auxílio de Deus, cuja graça nunca nos falta, e estarmos seguros de que quando Ele age em nós, e nós correspondemos com generosidade, o resultado supera largamente toda expectativa. Em nossas atividades apostólicas, tenhamos, portanto, esta fé: se é obra de Deus, em determinado momento haverá uma expansão na proporção de, pelo menos, trinta, sessenta ou até cem por um. E nas horas de sucesso, não nos esqueçamos de que tudo vem de Jesus, pois Ele próprio é o semeador. Lembremo-nos de suas palavras: “sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

A alma que deu frutos na plenitude

Quem ouviu e compreendeu por inteiro essa parábola senão Maria Santíssima, a qual certamente dela tomaria conhecimento com insuperável enlevo e amor? Ao falar em “boa terra” e em semente que produziu cem por um, muito compreensível seria estar Jesus pensando em sua Imaculada Mãe, a terra fertilíssima por excelência para fazer desabrochar a semente divina na plenitude.

Toda a vida da Santíssima Virgem foi um contínuo sim à vontade de Deus. Quando Ele A inspirou a fazer voto de virgindade, Ela aquiesceu com todo o entusiasmo. Ao Lhe ser anunciada a Encarnação do Verbo, sua resposta foi: “Faça-se em Mim segundo a vossa palavra” (Lc 1, 38), e a Palavra Se fez carne nesta terra imaculada. Ao ouvir dos pastores o que os Anjos lhes haviam comunicado, Ela guardou e conferiu em seu coração todas essas palavras (cf. Lc 2, 51). E o mesmo fez durante toda a vida com tudo quanto os adoráveis lábios de seu Divino Filho proferiram, até o “Consummatum est!”.

Constata o padre Garrigou-Lagrange, escrevendo com fervor marial: “É consolador pensar que há uma alma que recebeu a plenitude de tudo quanto Deus Lhe queria dar e nunca impediu que o esplendor da graça atingisse as demais almas. Existe uma alma absolutamente perfeita, a qual, sem obstáculo algum, deixou manar em Si mesma o rio de vida divino, que nunca esteve por um instante sequer abaixo daquilo que d’Ela Deus desejava”.


Enfim, o Coração Imaculado de Maria Santíssima é um Evangelho vivo, cujas maravilhas ainda estão para ser conhecidas!

Roguemos a Ela, protetora por excelência de todos quantos querem ouvir e pôr em prática a palavra de Deus, a graça de não deixarmos nenhuma semente que tenhamos recebido sem produzir todos os frutos esperados pelo Criador. ♦


O Inédito sobre os Evangelhos, Ano A. Vol. 02.

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