O penhor da nossa vitória

Solenidade da Ascensão do Senhor

Ao assumir nossa carne, quis o Filho de Deus viver entre nós para nos dar o exemplo da plenitude da perfeição a que deseja nos elevar. A subida do Senhor aos Céus é também um ponto de imitação. Como será, então, a nossa?

Mons. João S. Clá Dias, EP

 

 

Naquele tempo, 16 os Onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante d’Ele. Ainda assim alguns duvidaram. 18 Então Jesus aproximou-Se e falou: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e sobre a Terra. 19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28, 16-20).

A hora da partida de Jesus Cristo

Hoje, ao contemplarmos sua subida aos Céus, tenhamos presente que Jesus não nos abandonou, mas, pelo contrário, continua conosco, conforme a promessa feita no Evangelho: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. E nós, enquanto filhos, também desejamos permanecer com Ele, uma vez que veio a este mundo trazer-nos a participação na sua natureza divina.

Aquele que hoje Se eleva aos Céus é o mesmo que foi humilhado, açoitado, coroado de espinhos, crucificado entre dois ladrões e depositado num sepulcro. Seu Corpo estava chagado da cabeça aos pés, tal como a respeito d’Ele profetizara o salmista: “sou um verme, não sou homem, […] poderia contar todos os meus ossos” (Sl 21, 7.18); mas, antes de sua carne começar a sofrer a corrupção (cf. Sl 15, 10), ressuscitou-Se a Si próprio com seu poder divino, passou quarenta dias na Terra e voltou para o Pai.

São Tomás se pergunta que força O teria feito subir, e explica que, sendo Ele a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, nesse instante exerceu sua onipotência, pelo que a causa primeira foi sua virtude divina. Baseando-se também em Santo Agostinho, acrescenta que, no momento da Ressurreição, a glória da Alma de Cristo redundou na glorificação do Corpo, com seus atributos próprios, dentre os quais a agilidade, que confere a capacidade de se movimentar segundo o pensamento e o desejo, de maneira que onde está o espírito, lá esteja também o corpo. Ora, não convinha que Ele permanecesse na Terra, uma vez que ela é um local de decomposição, e era preciso que seu Corpo imortal estivesse no lugar apropriado, isto é, o Céu Empíreo. Assim, conclui o Santo Doutor, a segunda causa de sua Ascensão, foi “pelo poder da Alma glorificada que movia o Corpo como queria”.

Uma promessa feita a toda a humanidade

Nosso Senhor Jesus Cristo alçou-Se por seu próprio poder, e teve a delicadeza de deslocar-Se lentamente, ascendendo não à velocidade do pensamento, mas conforme a admiração dos que presenciavam o milagre. Foi-Se distanciando com calma, sorrindo e abençoando, até Se tornar um ponto cada vez menor e desaparecer. À vista da exaltação do Mestre, todos os circunstantes transbordaram de alegria e “voltaram para Jerusalém com grande júbilo” (Lc 24, 52).

Também para nós a Ascensão é motivo de gozo, de esperança e de fé. Por quê? Usemos de um exemplo para facilitar a compreensão deste mistério e sua implicação na espiritualidade dos fiéis. Seria impossível, e até monstruoso, imaginar que no dia de Páscoa só a Cabeça do Redentor voltasse à vida, enquanto seu Corpo sagrado jazesse chagado no túmulo. Ressuscitando a Cabeça, também todo o Corpo tinha de o fazer! Pois bem, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo; e Ele, ressuscitando como Cabeça da Igreja, dá aos batizados o penhor da ressurreição, pois “cada um, de sua parte, é um dos seus membros” (I Cor 12, 27). O mesmo se pode dizer da Ascensão: subindo aos Céus em Corpo e Alma, o Redentor concede a garantia de nos conduzir à eternidade da mesma forma, pois “Ele é nossa Cabeça, mister se faz que os membros vão para onde ela se dirigiu”.

A este respeito comenta São João Crisóstomo: “Observe-se que o Senhor nos faz ver suas promessas. Havia prometido ressuscitar os corpos; ressuscitou-Se a Si mesmo dos mortos e confirmou seus discípulos nesta fé, durante quarenta dias. Prometeu que seremos arrebatados ao Céu, e também o provou por meio das obras”.

Quando o Filho de Deus assumiu nossa carne, quis Ele viver entre nós para dar o exemplo da plenitude e da perfeição em todas as virtudes, atos e gestos que devemos praticar, inclusive na nossa futura partida para o Céu, como esperamos. A Ascensão do Senhor é, pois, para nós, um ponto de imitação. Como será, então, a nossa?

De Deus viemos, a Ele devemos retornar

No Evangelho de São João encontramos as palavras do Divino Mestre que sintetizam a trajetória de sua vida terrena, e devem também ser o resumo da nossa: “Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai” (Jo 16, 28). Elas podem se aplicar com toda razão aos homens, pois nenhum de nós criou a própria alma. Apenas o corpo foi formado pelo concurso dos pais — e mesmo estes não o engendrariam sem a força de Deus —, mas a alma provém d’Ele, que a cria no instante da concepção para que anime o corpo. Se fomos constituídos por Deus, é preciso que nosso desenvolvimento se faça com vistas a este retorno a Ele, como se deu com Jesus. Eis a extraordinária dignidade de nossa origem e de nossa finalidade: Deus!

No entanto, para atingirmos este fim é indispensável fazer como Nosso Senhor, que viveu com a atenção voltada para o Pai, conforme testemunhou em seu discurso de despedida: “Eu Te glorifiquei na Terra” (Jo 17, 4a). Nisto consiste a missão, o dever moral de cada homem. E não pensemos que tal meta se contrapõe às nossas obrigações no estado familiar ou em qualquer outro, pois se as cumprimos por amor a Deus, em função d’Ele e para Ele, realizamos o nosso chamado e poderemos dizer:

 

“Terminei a obra que Me deste para fazer” (Jo 17, 4b). Com a Encarnação, Jesus revelou à humanidade o Deus Uno e Trino, Pai, Filho — que é Ele — e Espírito Santo, e mostrou que a única Religião verdadeira, o único caminho que nos fortalece e nos dá paz é este que Ele trouxe, com o perdão dos pecados, a instituição dos Sacramentos e a felicidade do estado de graça. Por isso pôde afirmar: “Manifestei o teu nome aos homens” (Jo 17, 6).

Quanto a nós, devemos continuar a sua obra e, para isso, contar com a força do Espírito Santo que nos é prometida. Se estivermos compenetrados de que somos membros de seu Corpo Místico, chamados a participar da herança de sua glória, e seguirmos a via por Ele aberta, nossos corpos ressuscitarão gloriosos no último dia.

Glorificação da natureza humana

A Ascensão de Cristo é o preâmbulo do que nos aguarda, como Ele anunciou: “vou preparar-vos um lugar” (Jo 14, 2). Ao subir, abre para nós as portas do Céu e, ao cântico dos Anjos, Se estabelece em seu trono ao lado do Pai, representando toda a humanidade, como belamente entoamos nos versos do hino de Laudes desta Solenidade: “Demos graças a tal defensor / que nos salva, que vida nos deu / e consigo no Céu faz sentar-se / nosso corpo no trono de Deus”. De fato, no momento em que a humanidade santíssima de Jesus Se assenta no “trono da Majestade divina nos Céus” (Hb 8, 1) e recebe a glória devida, todo o gênero humano é também elevado.

Sabemos, todavia, que só no Juízo Final teremos essa glória, pois antes disso todos morreremos e o corpo não será poupado da decomposição, servindo de alimento aos vermes até se desfazer. Enquanto não o recuperarmos a alma estará, sob certo aspecto, em estado de violência, como explica o padre Royo Marín: “Se é contrário à natureza qualquer mutilação do corpo humano, […] é evidente que muito mais contrário à natureza humana é que o corpo inteiro se destaque e se separe de sua alma”. Contudo, o período que permeia entre o instante em que fechamos os olhos para esta vida e o da ressurreição no último dia é ínfimo se comparado à eternidade. No fim do mundo comprovaremos o extraordinário poder de Deus pois, assim como criou nossa alma do nada, Ele reconstituirá os corpos a partir do que deles ainda restar; e, se tivermos morrido em graça, os restituirá em estado glorioso, para subirmos ao Céu tal como Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Ascensão, comemorada liturgicamente nesta Solenidade.

Ele intercede por nós junto ao Pai

À vista disso, a Oração do Dia adquire especial significado ao recordar que a Ascensão do Senhor “já é a nossa vitória”. E prossegue: “Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu Corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”. Ele está sentado no trono de Deus, à direita do Pai, como Intercessor, Mediador e Sacerdote, apresentando-Lhe sua humanidade! Sem dúvida, basta-nos isto para obtermos tudo o que necessitamos. E Ele não só oferece sua humanidade, como o faz depois de ter passado por todas as vicissitudes de um corpo padecente, pela Paixão e pela Morte.

O padre Monsabré, célebre pregador dominicano, tece algumas considerações sobre este tema: “Lá, Vós concluís a obra de nossa salvação. Lá, Vós fazeis um apelo à nossa fé, à nossa esperança, ao nosso amor, às nossas adorações; lá, precursor diligente e devotado, nos preparais um lugar, mostrando-nos a via que seguistes e as gerações bem-aventuradas que haveis livrado do poder de satanás. Lá, Pontífice misericordioso, Vós mostrais as vossas chagas e aplicais, em nosso favor, os sofrimentos e os méritos de vossa Paixão e de vossa Morte; de lá, derramais sobre nós todos os vossos dons. De lá, enfim, Vós vireis um dia, lei subsistente e viva, Sabedoria Encarnada, Senhor de toda criatura, exemplar de toda vida, plenitude de toda graça, de lá vireis, revestido de grande poder e de grande majestade, para julgar os vivos e os mortosˮ.

Deste modo, temos ao lado do Pai alguém que participa de nossa natureza, de nossa carne e de nossos ossos a advogar por nós, acompanhado por Maria Santíssima, que sempre vela com incansável maternalidade pelos homens.

Peçamos a Eles a graça de não serem tisnadas nossas almas pelas ilusões que levaram os Apóstolos a procurarem uma felicidade meramente humana. Esteja nossa atenção sempre voltada para as coisas do alto, buscando restituir a Deus tudo quanto d’Ele recebemos ao longo da vida. E assim como estamos neste mundo para imitar Nosso Senhor, que Se encarnou para ser o Modelo Supremo, assim também devemos nós ser exemplo para os outros. Eis a verdadeira perspectiva neste estado de prova: manter sempre a esperança de que, em determinado momento, estaremos em corpo e alma nos Céus, num eterno e sublime convívio com Deus! ♦


O Inédito sobre os Evangelhos. Vol. 01. Ano A. Páscoa.

Uma resposta para “O penhor da nossa vitória”

  1. O amor e a força que move o mundo! Somos responsáveis por mudar o ambiente e dar exemplo para outros,nos momenos de provação ! Vcs Arautos são nossa inspiração e exemplo! Obrigada por suas entregas incondicional! Salve Maria.

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