O triunfo, a cruz e a glória

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

A conjunção da entrada triunfal do Divino Redentor em Jerusalém e dos sofrimentos de sua dolorosa Paixão nos lembram que a perspectiva da cruz está sempre nimbada pela certeza da glória futura

Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho e do Apostolado do Oratório

Triunfo prenunciativo da glória da Ressurreição

Ao considerar no Domingo de Ramos a entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, devemos ter presente que a Liturgia não é apenas uma rememoração de fatos históricos, mas, sobretudo, uma ocasião para receber as mesmas graças criadas por Deus naquele momento, e distribuídas ao povo judeu que lá se encontrava. Por isso a Igreja Católica estimula os fiéis a repetir simbolicamente essa cerimônia, a fim de se iniciar a Semana Santa com a alma bem preparada.

Na Antiguidade, os grandes heróis militares e os atletas vencedores eram saudados com ramos de palma, para honrá-los pelo triunfo alcançado. Portanto, Jesus quis que sua Paixão, cujo ápice se deu no Calvário, fosse marcada pelo triunfo já na abertura, antecipando a glória da Ressurreição que viria depois.

Evangelho da Procissão

Naquele tempo1 Jesus e seus discípulos aproximaram-se de Jerusalém e chegaram a Betfagé, no Monte das Oliveiras. Então Jesus enviou dois discípulos, 2 dizendo-lhes: “Ide até o povoado que está ali na frente, e logo encontrareis uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrai-a e trazei-os a Mim! 3 Se alguém vos disser alguma coisa, direis: ‘O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá’”. 4 Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta: 5 “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta”. 6 Então os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia mandado. 7 Trouxeram a jumenta e o jumentinho e puseram sobre eles suas vestes, e Jesus montou. 8 A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores, e os espalhavam pelo caminho. 9 As multidões que iam na frente de Jesus e os que O seguiam, gritavam: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos Céus!” 10 Quando Jesus entrou em Jerusalém a cidade inteira se agitou, e diziam: “Quem é este Homem?” 11 E as multidões respondiam: “Este é o Profeta Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mt 21, 1-11).

Uma clave para considerar a Paixão do Senhor

Contemplemos a Liturgia de hoje com esta perspectiva, revivendo aqueles momentos de gozo em que Jesus entra na Cidade Santa, com vistas a passarmos depois pelas angústias da Paixão e pelas alegrias da Ressurreição. Que as graças derramadas sobre todos os participantes dessa primeira procissão, na qual estava presente o Redentor, desçam sobre nós e cumulem nossas almas, fazendo-nos compreender bem o papel do sofrimento em nossa vida de católicos apostólicos romanos, enquanto meio indispensável para chegar à glória final e definitiva. Dor e triunfo encontram-se aqui magnificamente entrelaçados. Per crucem ad lucem! ― É pela cruz que alcançamos a luz!


“Per crucem ad lucem!”

Contrariamente à quimera sugerida por certa mentalidade muito alastrada, não é possível abolir a cruz da face da Terra, pois, em geral, todo ser humano sofre. Apenas nas produções cinematográficas e demais fantasias do gênero ― coroadas sempre pelo happy end ― encontramos figuras irreais de pessoas imunes a qualquer incômodo físico ou moral, bem-sucedidas em todos os seus empreendimentos e sem dificuldades no convívio social, não havendo sequer os pequenos aborrecimentos e decepções do cotidiano.

Por mais que se fundem hospitais, por mais que se abram creches ou se construam abrigos para idosos, a dor é nossa companheira e só deixará de existir no Paraíso Celeste. É imprescindível ao homem, portanto, compreender o verdadeiro valor do sofrimento, pois uma impostação equivocada perante ele leva alguns a caírem no abatimento; outros, a revoltar-se contra a Providência; outros — quiçá a maioria — a querer se esquivar de carregar a própria cruz, tentativa que, além de ser inútil, a torna mais pesada, acrescentando-lhe o ônus da inconformidade com a vontade de Deus, que conhece e permite cada uma de nossas angústias.

O valor da luta

Compenetremo-nos de que a dor encerra inúmeros benefícios para nossa salvação. Em primeiro lugar, é um poderoso meio para nos aproximarmos de Deus. Com efeito, desde antes da queda, Anjos e homens, por terem sido criados em estado de prova, têm a tendência de fechar-se sobre si, quando deveriam estar constantemente abertos para Deus. E é nisto que consiste a prova. Com o pecado essa inclinação acentuou-se, e cada falta atual aumenta-lhe a virulência.

Por tal razão, as lutas, reveses e aflições surgidas em nosso caminho são elementos eficazes para dirigir nosso espírito ao Bem infinito e escancarar para Ele a porta de nossa alma. Nessas horas experimentamos o poder da oração, sentimos nossa total dependência em relação ao Criador e nos colocamos em suas mãos sem reservas, à procura de amparo e força.

Assim considerado, o sofrimento bem pode receber o título de bem-aventurança que nos faz merecer, já neste mundo, a recompensa de libertar-nos de nosso egoísmo e de vivermos voltados para Deus. Ó dor, bem-aventurada dor!

O sofrimento nos torna patente, ainda, o vazio dos bens terrenos, tão passageiros, e nos ensina a não pormos neles a esperança, alimentando em nosso coração o desejo da felicidade eterna. Em sua bondade infinita, o Senhor “nos cumulou de tribulações na Terra para nos obrigar a buscar a felicidade no Céu”, assegura Santo Antônio Maria Claret. Se nossa existência transcorresse sem a presença de obstáculos, seríamos como um botão de rosa que nunca houvesse desabrochado ou um bebê que não crescesse nem se desenvolvesse, e jamais atingiríamos a plenitude espiritual de um concidadão dos Santos e habitante do Céu. O sofrimento constitui-se, então, um meio infalível de preparação para contemplar a Deus face a face.

A glória comprada pelo sofrimento

O Verbo onipotente, Unigênito do Pai, ao Se encarnar quis passar pelas vicissitudes da condição humana, para nos dar exemplo de paciência. Sua Alma santíssima, criada na visão beatífica desde o primeiro instante da concepção, já possuía toda a glória, e esta deveria, naturalmente, refletir-se em sua carne. Mas a relação natural entre alma e corpo n’Ele estava submetida à sua divina vontade, à qual aprouve suspender esta lei, realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente “a fim de que obtivesse com maior honra a glória do Corpo, quando a merecesse pela Paixão”.

Por conseguinte, Ele assumiu aquelas deficiências corporais derivadas do pecado original que não são incompatíveis com a perfeição da ciência e da graça, como o cansaço, a fome, a sede, a morte. Quis nascer numa Gruta, onde suportou o frio da noite e outras agruras; quis depois viver de maneira apagada, como Filho de um carpinteiro, sem revelar sua origem eterna; e, por fim, quis sofrer morte violenta para nos redimir. Sujeitando-Se a todos os gêneros de sofrimento humano inferidos de fora, Jesus visava também apontar o combate da cruz como causa de elevação para todos nós, batizados, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8, 17). É o que nos apresenta a primeira leitura (Is 50, 4-7), na disposição de Isaías ― pré-figura do Redentor ― de enfrentar todos os ultrajes por amor a Deus e ao próximo, certo, todavia, de não ser desonrado nem desapontado, pois o Senhor virá em seu auxílio e lhe concederá a vitória.

As palavras de São Paulo aos filipenses, depois de se referir aos tormentos de Cristo, confirmam com maior ênfase este ensinamento: “Por isso, Deus O exaltou acima de tudo e Lhe deu um nome que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus todo joelho se dobre no Céu, na Terra e abaixo da terra, e toda língua proclame: ‘Jesus Cristo é o Senhor’, para a glória de Deus Pai” (Fl 2, 9-11). Tão excelente é o sacrifício de nosso Salvador, oferecendo-Se a Si mesmo ao Pai como Vítima perfeita, que os efeitos da Paixão excedem em muito a dívida do pecado: “Deus Pai pediu a seu Filho um ato de amor que Lhe agrada mais do que Lhe desagradam todos os pecados juntos; um ato de amor redentor, de um valor infinito e superabundante”.

Por causa desse generoso holocausto, no qual Se humilhou e Se esvaziou de sua dignidade divina tornando-Se semelhante aos homens, Nosso Senhor mereceu ser exaltado, pois “quando alguém, por uma justa vontade, se priva do que tinha direito de possuir, merece que se lhe dê mais, como salário de sua vontade justa”, afirma São Tomás. Reportando-nos ao início da celebração do Domingo de Ramos, vemos que se a entrada triunfal em Jerusalém precedia as humilhações da Paixão, esta, por sua vez, prenunciava a verdadeira glorificação de Jesus, conforme suas próprias palavras aos discípulos de Emaús, depois da Ressurreição:

“Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24, 26).

O combate do católico é sua glória

A lição da Liturgia neste início de Semana Santa deve ser guardada na lembrança até o nosso último suspiro: somos combatentes! Não fomos feitos para apoiar aqueles que põem sua esperança no mundo, mas para defender Nosso Senhor Jesus Cristo. O mundo só nos interessa como objeto de conquista para o Reino de Deus, pois queremos ser apóstolos, a fim de que todos os homens experimentem nossa alegria de cristãos. Alegria proveniente da certeza, infundida pela fé na alma, de um dia recuperar o corpo em estado glorioso e viver a eternidade feliz no convívio com Deus, com Maria Santíssima, com os Anjos e com os Santos.

Embora esta passagem para a bem-aventurança tenha como átrio a morte ― destino natural de todo homem ―, a convicção de que a cruz conduz à luz, isto é, à vitória e ao triunfo final, torna a alma equilibrada, calma e serena, e dá forças para encarar a morte com confiança, sabendo que no outro lado estará Aquele que por nós morreu na Cruz, pronto a nos receber.

Nesta Semana Santa, unamo-nos a Nosso Senhor Jesus Cristo e façamos companhia a Nossa Senhora nas dores que ao longo dos próximos dias vão se descortinar diante de nossos olhos, com a certeza da glória que atrás delas espera para se manifestar. ♦


O Inédito sobre os Evangelhos, Vol. 1. Ano A. Quaresma.

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