A Santa Casa de Loreto

A meditação do primeiro sábado de novembro será sobre a Anunciação do Anjo São Gabriel a Maria Santíssima. Nossa Senhora recebeu a angélica visita em sua casa em Nazaré. Hoje esta mesma casa está na cidade de Loreto, na Itália. Como isso aconteceu? Veremos neste artigo

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. (Lc 1, 26)

Este acontecimento, talvez o maior de toda a História, deu-se numa humilde casinha, na cidade de Nazaré, na atual Palestina. Ao refletir alguns instantes sobre este fato grandioso, quem não desejaria viajar no tempo e estar ali, num canto, assistindo este marco de toda a História da humanidade? Quem não gostaria de ser uma simples pedra daquelas paredes para poder contemplar este augusto colóquio e ouvir o “sim” dito por Maria ao anjo Gabriel? Quem não exclamaria como a pequena Teresa Martin?:

A minha emoção foi profunda encontrando-me sob o mesmo teto que a Santa Família, contemplando as paredes sobre a quais Jesus tinha fixado os seus olhos divinos” (SANTA TERESINHA, 1979).

Interior da casa onde viveu Nossa Senhora, hoje em Loreto, Itália

Esta casinha, composta de três paredes que se encaixavam na entrada de uma gruta cavada na rocha, era o local onde vivam Maria e seus pais quando o anjo lhe apareceu. Maria aí fora concebida e nascera. Foi aí também que tivera a revelação do Anjo e onde o plano salvífico do gênero humano começara.

Durante trinta anos aí vivera a Sagrada Família. Esta Santa Casa, ainda hoje se conserva não mais em Nazaré, mas em Loreto, Itália (MURRI, 1791).

Como ela foi transportada por uma distância tão grande, por quem e por que?

O itinerário da Santa Casa

Era a segunda vigília da noite de 9 ou 10 de maio de 1291, a Santa Casa de Maria apareceu repentinamente na Dalmácia (atual Croácia), às margens do Adriático, entre Tersato e Fiume[1], no monte Rauniza. De manhã a surpresa dos habitantes e peregrinos, cada vez em maior número, era indescritível: de onde e como apareceu repentinamente lá aquela Casa?

Feita de pedras vermelhas e quadradas, arquitetura desconhecida na região, era certamente uma construção de forma oriental, claramente antiga. Como é que se mantinha em pé toda aquela mole, pousada na terra nua, sem quaisquer fundações? O estupor ainda foi maior quando o povo viu o seu pastor, o Bispo Alexandre, nativo de Modruzia, aparecer diante da misteriosa casa. Todos sabiam que ele estava gravemente doente. Mas fora misteriosamente curado: à noite, no seu leito de dor, a Santíssima Virgem lhe havia aparecido e revelado que aquela era a sua Santa Casa.

O governador local, Nicolau Frangipane, nomeou uma comitiva de deputados, entre eles Sigismundo Orsich e João Grégoruschi, além do próprio bispo Alexandre, para irem a Nazaré, na Palestina, e averiguar os fatos.

Escavação em Nazare hoje em dia, onde arqueólogos acreditam ser o local da Casa de Maria[2]

Verificaram que não existia mais em Nazaré a casa que, desde a época apostólica era tida por todos como a Casa da Sagrada Família.

As fundações que lá restavam não tinham nenhuma diferença com a construção que havia aparecido em Tersato. As dimensões eram perfeitamente iguais. Tudo confirmado por escrito e sob juramento.

Três anos e meio depois, em decorrência de acontecimentos que todos julgaram indignos da gratidão e reverência que se deveria prestar, a Santa Casa desapareceu.

No monte Rauniza, o governador mandou erigir uma capela, onde se podia ler:

Aqui é o lugar onde outrora esteve a Santíssima Casa da Bem-Aventurada Virgem”. E no caminho que dava acesso ao local gravou-se: “Santa Casa da Bem-aventurada Virgem veio a Tersato no dia 10 de maio de 1291 e retirou-se no dia 10 de dezembro de 1294” (ROHRBACHER, 1858).

Segundo narra a tradição difundida há séculos a toda a Cristandade, creditada por inúmeras provas históricas e arqueológicas, a Santa Casa da Virgem Maria foi transportada miraculosamente, por vontade de Deus, de Nazaré, na Galiléia a Tersato em 1291, e depois a uma colina da cidade de Ancona, onde permaneceu por nove meses e finalmente em Recanati, no local hoje chamado Loreto, em 1294.

Caminho percorrido no translado da Casa de Nazare a Loreto

Um testemunho deixado por Girolamo Angelita, arquivista da cidade de Recanati de 1509 a 1561, confirma a data da chegada da Santa Casa em Tersato, na Dalmácia, em 9-10 de maio de 1291 e fixa a sua chegada em Loreto em 9-10 de dezembro de 1294. Angelita baseou-se numa “schedula”, um extrato de um documento dos “Anais de Fiume”, no qual era narrada a história da milagrosa transladação da Santa Casa à Dalmácia, “por ministério angélico” (NICOLINI, 2004).

Segundo NICOLINI aos habitantes da cidade de Recanati informaram ao Papa Leão X sobre esta “schedula” recebida de Tersato. Por esta razão, certamente o Papa afirmou ser a história da transladação milagrosa da Santa Casa de Nazaré-Tersato-Loreto, comprovada por “testemunhos dignos de fé” (LEÃO X, 1518).

Comprovações arqueológicas[3]

 As três paredes que compõem a Santa Casa estavam conectadas à entrada de uma Gruta em Nazaré. As experiências de estudiosos e arqueológicos, especialmente MONELLI (2001) realizadas na Gruta, que ainda hoje é venerada, na Basílica da Anunciação, em Nazaré, comprovam que as três pareces se conectam perfeitamente à base ainda existente no local. As pedras utilizadas na construção da Casa são trabalhadas segundo o uso dos Nabateus[4], um povo que teve influência na Galiléia até o tempo de Jesus. Sobre as pedras ainda se conservam gráficos e incisões típicos da comunidade judaico-cristã presentes somente na Palestina.

O Papa emérito Bento XVI em visita a Santa Casa de Loreto em 2012

Segundo o testemunho do Beato Giovanni Spagnuoli (conhecido também o “il Mantovano”) havia na entrada do Santuário de Loreto uma antiqüíssima lápide, onde estava impressa a história da milagrosa transladação (FRANCESIA, 1894).

O insigne arquiteto Federico Mannucci, encarregado pelo Papa Bento XV de examinar as fundações da Santa Casa, por ocasião da reforma do pavimento, após o incêndio de 1921, escreveu e declarou peremptoriamente, no seu “Relatório” de 1923, que é “absurdo somente cogitar” que o sacello [5] possa ter sido transportado “com meios mecânicos”, e revelou que:

“É surpreendente e extraordinário o fato de que o edifício da Santa Casa não tendo nenhum fundamento, situado sobre um terreno de nenhuma consistência, desfeito e sobrecarregado, ainda que parcialmente, pelo peso da armação construída no lugar do teto, se conserve inalterado, sem ter cedido em nada e sem ter sequer uma mínima rachadura nas paredes” (MANNUCCI, 1923).

O arquiteto Mannucci traçou ainda, em síntese, as seguintes conclusões:

1) as paredes da Santa Casa de Loreto são formadas com pedras da Palestina, e cimentadas com argamassa lá utilizada; 2) é absurdo somente cogitar num transporte mecânico;

3) a construção da Santa Casa no lugar onde se encontra se opõe a todas as normas de edificação e às próprias lógicas físicas.

O estudo sobre o translado da Casa da Virgem Maria é longo e excede por demais o espaço de um post. Acreditamos que o exposto até aqui seja suficiente para ilustrar o espetacular milagre.

Entretanto, para aqueles que desejarem aprofundar sobre o assunto, disponibilizamos abaixo o documento completo. Clique na foto e baixe o arquivo.

A CASA DE MARIA: ANÁLISE HISTÓRICO TEOLÓGICA SOBRE A TRANSLADAÇÃO DA SANTA CASA DE NAZARÉ A LORETO

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[1] Fiume é a tradução para o italiano de Rijeka (rio) nome da cidade e o principal porto da Croácia, localizada na Baía de Kvarner, uma reentrância do Mar Adriático. Rijeka é uma cidade vizinha a Tersato.
[2] http://www.gesustorico.it/htm/archeologia/casa-nazareth.asp
[3] São Muitos os estudos e as comprovações arqueológicas sobre este milagre, os quais podem ser vistos no documento anexo a este post.
[4] Os Nabateus foram um povo que habitou as terras adjacentes à península do Sinai lugar hoje chamado de vale de Aqaba.
[5] O sacello (do latim sacellum, diminutivo de sacrum, que significa recinto sagrado) no mundo romano era uma pequena área sem cobertura, que se encontrava ao redor de um altar. Geralmente era dedicada a uma divindade menor. Na arquitetura cristã com a palavra sacello se indica uma igreja ou uma capela de pequenas dimensões. In http://it.wikipedia.org/wiki/Sacello. (tradução minha)

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