Emanuel, “Deus conosco”

Ao receber a Eucaristia na Sagrada Comunhão, pode-se dizer que Nosso Senhor passa a estar “em nós”. E quando se considera a Eucaristia reservada no tabernáculo ou exibida no ostensório, com propriedade conclui-se que Ele está “conosco”

Pe. Rafael Ramón Ibarguren Schindler*, EP

Em ambos os casos, Sua presença e Sua proximidade são confirmadas. Quão amável, quão grandioso, que divina companhia!

Deus é eminentemente comunicativo e sociável; se nota por toda a obra da criação e pela relação privilegiada que Ele quer ter com o homem, a quem criou à sua imagem e semelhança, colocando nele um instinto muito arraigado que é o da sociabilidade; instinto mais dinâmico que o instinto de autopreservação que naturalmente reage imediatamente a qualquer perigo.

Vendo o homem recém-criado, feito do barro da terra, Deus sentenciou: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2, 18) e de seu costado tirou a mulher para lhe fazer companhia.

São Tomás de Aquino ensina que há três situações precisas nas quais o instinto social é inibido, quais sejam:

O caso do insano, que sem razão não raciocina; dos religiosos de clausura que voluntariamente se isolam por um ideal superior e dos prisioneiros, aqueles privados de liberdade. São exceções, o normal é se relacionar com os outros!

Com Deus, o instinto de sociabilidade é saciado em sua plenitude, não por exaustão, mas por desejo de estar mais e mais junto ao Santíssimo Sacramento. Porque se trata do comércio que os homens têm com seu Criador, seu Salvador, seu modelo perfeito e seu fiel Amigo por excelência.

Portanto, a proximidade com o Santíssimo Sacramento é altamente ordenativa. Com muita propriedade a Igreja manda para santificar o Dia do Senhor participando da Eucaristia.

Começando a semana relacionando-se com Deus na Missa e, eventualmente, com a recepção da comunhão, os fiéis se preparam da melhor maneira possível para as batalhas do resto da semana. Como podemos nos privar do Dies Domini e deixar de celebrar a Cristo ressuscitado presente no Santíssimo Sacramento do Altar?

Entretanto, que desolação em vista desse dever não cumprido em tantos casos! E quantos que não se beneficiam deste estímulo fortificante, muitas vezes se queixam dos problemas diários e até se indispõe contra um Deus providente. Eles voltam às costas ao Criador, superestimando as criaturas, sua própria pessoa, sua “pequena pessoa” …

É assim que começando mal, necessariamente também termina mal.

O Magistério eclesiástico é riquíssimo em ensinamentos sobre a Eucaristia e quão necessário é o seu culto e benéfica a sua companhia. Desde os tempos apostólicos até os nossos dias, Nosso Senhor Jesus Cristo oferece, através da Igreja que é o seu Corpo Místico, esse poderoso viático para o caminho que nos leva ao céu: Seu Corpo e Seu Sangue.

Uma encíclica relativamente recente – e um pouco esquecida – é a “Mysterium Fidei” de Paulo VI, publicado em 1965, logo após o Concílio Vaticano II. Sua leitura é muito instrutiva e recomendável. Não diz propriamente coisas novas, senão apenas recorda da doutrina tradicional, para fazer frente a mentalidade contemporânea que põe em dúvida as verdades da fé.

No subtítulo “Exortação para promover o culto eucarístico”, lê-se: “(…) Quem não vê que a divina Eucaristia confere ao povo cristão dignidade incomparável? Cristo é verdadeiramente “Emmanuel”, isto é, “o Deus conosco”, não só durante a oferta do Sacrifício e realização do Sacramento, mas também depois, enquanto a Eucaristia se conserva em igrejas ou oratórios. Dia e noite, está no meio de nós, habita conosco, cheio de graça e de verdade: modera os costumes, alimenta as virtudes, consola os aflitos, fortifica os fracos; atrai à sua imitação quantos dele se aproximam, para que aprendam com o seu exemplo a ser mansos e humildes de coração, e a procurar não os seus interesses mas os de Deus(…) “.

Que verdade consoladora: a proximidade da Eucaristia confere uma “dignidade incomparável”: quantos sonham, e até deliram, em ser importantes, ter prestígio, comando e influência! Isso são “nadas” – comparadas àquelas que ficaram escondidas por trás das aparências de um pão humilde encerrado em um tabernáculo – são, portanto, simplesmente “nadas“, não mais que isso. Desperdício ou lixo, diria São Paulo.

À luz do ensinamento da Encíclica, com a Eucaristia “ordenemos os nossos costumes, alimentemos as virtudes, consolemo-nos e fortalecemo-nos”

O que a Igreja nos ensina é que, do Sacramento, Nosso Senhor implora em um constante clamor silencioso e doloroso, porque Ele é deixado sozinho.

“Tendo amado o seu povo, o Senhor amou-os até ao fim” (Jo 13, 1) … Antes da última ceia da Quinta-feira Santa,  Nosso Senhor declarou aos seus apóstolos “com quantos anseios quis celebrar esta Páscoa contigo “(Lucas 22,15). E Ele nos deixou seu corpo e seu sangue, que é sua própria pessoa.

Já pensamos sobre o tamanho da ferida aberta em seu Coração Sagrado por causa de tanta falta de correspondência de nossa parte?

A indiferença dos fiéis em relação ao mistério eucarístico tenta transformar o amável Emanuel em um distante, um “deus sem nós” … Em vão.

Assunção, 1º de maio de 2019

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*Conselheiro de Honra da Federação Mundial das Obras Eucarísticas e da Igreja.

 

 

 

 

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