Somos filhos de Deus?

Na ordem puramente natural o homem é uma criatura de Deus, já que dEle recebeu seu próprio ser e sua própria existência através de seus pais naturais. Entretanto, falando com toda exatidão e precisão teológicas, não se pode dizer que seja nesta ordem um verdadeiro “filho” de Deus

Julio Cesar Imperador – Museu Metropolitano de Nova York – USA

O homem, criatura de Deus

Toda verdadeira filiação seja de que ordem for, consiste em receber, por via de geração natural a vida e a natureza específica do próprio pai. Não há outro procedimento possível para estabelecer a relação pai-filho no sentido estrito que a via de causalidade geradora.

O escultor que reproduz fielmente no mármore os traços fisionômicos exatos de seu filho, é o autor da estátua, mas de nenhum modo pai da mesma, uma vez que, por muito impressionante que seja a semelhança com seu filho natural, não pôde transmitir ao mármore sua própria vida e natureza especificamente humanas.

Ora, na ordem puramente natural, Deus Criador nos comunica, através de nossos pais, o ser e a natureza específica do homem, mas não seu próprio ser e sua própria natureza divina.

 O ser natural estabelece uma relação estreitíssima entre o homem e Deus enquanto criatura sua, mas não aparece aqui qualquer gênero de verdadeira filiação. Isto, como veremos, está reservado à graça santificante, na ordem estritamente sobrenatural.

A ordem sobrenatural da graça

Tudo quando dissemos no capítulo anterior refere-se à ordem humana puramente natural. Nessa ordem o homem é uma simples criatura de Deus, ainda que muito perfeita; só é inferior aos anjos. Vejamos o que acontece na ordem sobrenatural.

Elevação do homem à ordem sobrenatural

É fato certíssimo, posto ser dogma de fé, que todo o gênero humano foi elevado por Deus, desde o princípio, à ordem sobrenatural, constituído fundamentalmente pela graça e justiça original, sem que jamais haja existido para o homem um estado de simples natureza.

Desde o primeiro instante de sua existência, nosso primeiro pai, Adão, foi constituído em santidade e justiça (D 788), ou seja, no estado de graça santificante. Eis a declaração expressa do Concílio Vaticano I: “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, *nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam” (I Cor 2, 9) (D 1786).

Adão- Igreja do Perpétuo Socorro – Montevidéu – Uruguai

O pecado de Adão

Infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural.

Ao transgredir o mandamento de Deus pelo pecado original, nossos primeiros pais perderam, para si e para todos seus descendentes, o imenso tesouro sobrenatural que haviam recebido de Deus, e que teriam herdado todos os seus filhos, se não o perdessem irremediavelmente pelo pecado.

O Concílio de Trento definiu esta doutrina nos seguintes cânones dogmáticos:

“Se alguém não acredita que o primeiro homem, Adão, ao transgredir o mandamento de Deus no Paraíso, perdeu imediatamente a santidade e justiça em que havia sido constituído (…), seja anátema” (D 788).

E mais:

“Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só prejudicou a ele, e não à sua descendência; ou que a santidade e justiça recebida de Deus, perdida por ele, perdeu-a só para si, e não também para todos nós; ou ainda que, manchado ele pelo pecado de desobediência, transmitiu ao gênero humano somente a morte e as penas do corpo, mas não o pecado, que é a morte da alma, seja anátema, pois contradiz o Apóstolo, que disse: *Por um só homem entrou o pecado no mundo, e, pelo pecado, a morte, porquanto todos pecaram” (Rom. V, 12) (D 789).

A restauração realizada por Jesus Cristo

A catástrofe produzida pelo pecado original era, de si, absolutamente irreparável só pelas forças da natureza humana (cfr. D 790); por causa da distância infinita que medeia entre o homem e Deus, era impossível cobri-la só pelas forças humanas. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, compadeceu-se do gênero humano e decretou a Encarnação de seu próprio Filho unigênito que, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz (Flp 2, 8), restabeleceu com seu sacrifício redentor a ordem destruída pelo pecado, restaurando para sempre a vida sobrenatural à qual haviam sido elevados nossos primeiros pais.

Sagrado Coração – Sede Monte Carmelo – Arautos do Evangelho

Ouçamos o Apóstolo São Paulo revelando o grande mistério de nossa reconciliação por Cristo:

“Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por nossos delitos, deu-nos vida por Cristo gratuitamente fomos salvos e nos ressuscitou e deu-nos assento nos céus em Cristo Jesus, a fim de mostrar nos séculos vindouros a excelsa riqueza de sua graça por sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois gratuitamente fostes salvos pela fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2, 4-8).

Cristo é para nós a fonte única de nossa vida sobrenatural. Não se concedeu nem se concederá jamais ao gênero humano uma só graça sobrenatural a não ser por Cristo ou em atenção a Ele, pois de sua plenitude recebemos, todos, graça sobre graça (Jo 1, 16). O mesmo Cristo manifestou expressamente, com inefável amor e misericórdia, que viera ao mundo para que os homens tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10, 10).

Pois bem. No que consiste propriamente esta vida sobrenatural que Cristo nos mereceu com o preço infinito de seu divino sangue? Fundamentalmente, consiste na graça santificante, que nos dá uma verdadeira e real participação da natureza e vida do próprio Deus.

Eis aqui o mistério sublime que vamos estudar no próximo artigo.

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Fonte: O Homem e sua existência natural Pe. Antonio Royo Marín, O.P., Somos hijos de Dios C Misterio de la divina gracia, BAC, Madrid, 1977, Cap. I.

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