Quem é o meu próximo?

XV Domingo do Tempo Comum

A Lei mandava amar o próximo como a si mesmo. Os judeus, porém, limitavam o conceito de próximo, de forma a restringir essa importante obrigação. Jesus vem dar o verdadeiro sentido à Lei

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP

O principal objeto do pensamento, ontem e hoje

Falhou o motor do carro, acabou a energia elétrica, os bancos entraram em greve, foi lançado um novo tipo de software, afinal a ciência encontrou a substância preventiva contra o câncer”… e, se tempo e espaço houvesse, poderíamos encher páginas e páginas com os assuntos que no mundo atual absorvem exageradamente a atenção da humanidade. Deus deixou de ser a preocupação principal de quase todas as pessoas para dar lugar a um desenfreado egocentrismo. A agitação passou a ser a nota tônica do dia a dia em toda a face da Terra, o relacionamento humano e a própria estrutura da vida social já não mais facilitam a elevação do pensamento a Deus.

A esse respeito, a situação do gênero humano era bem diversa na época da Jesus; apesar da grande decadência na qual estava ele mergulhado, o empenho em conhecer ideias era mais notório. No povo judeu, em concreto, a apetência por explicitações doutrinárias, sobretudo quando estreitamente ligadas com a religião, era robusta e contagiante. Um exemplo característico deste estado de espírito ocorre com o legista que, no Evangelho de hoje, se levanta para fazer uma pergunta a Nosso Senhor. Por mais que seu intento não fosse inteiramente isento de segundas intenções, o questionamento exposto por ele deixa transparecer qual era o teor dos assuntos tratados nas conversas comuns daquele período histórico.

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Boletim Informativo no. 99 março/abril 2019

Paradoxo insolúvel…
para almas sem fé


Depois de três anos de árduas conquistas, quando o Messias parecia alcançar a glória, vieram o revés, a perseguição, a dor. Em menos de uma semana, de domingo a sexta-feira, Ele passou de festejado a condenado, de procurado a rejeitado. Do “Arco do Triunfo”, foi arrastado à Cruz.

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Para as mentes naturalistas, a estrada que conduz à glorificação de Cristo deveria ter sido uma continuação em linha reta do Domingo de Ramos. Mas isso seria muito pouco para o Divino Salvador, e Deus, que sempre escolhe o caminho mais belo, adotou para seu Filho a Via Crucis.

A chave deste imenso paradoxo se encontra no esplendor do triunfo da Ressurreição. A prova de que a verdadeira vitória de Cristo se deu no Calvário, é que seu estandarte de glória não é uma vulgar folha de palmeira, mas a Cruz, também chamada de “Árvore da Vida”.

E esta é mais uma lição que os carentes de fé nunca puderam compreender…

Meditação do Primeiro Sábado de setembro 2018

IV Mistério Doloroso
Nosso Senhor carrega a Cruz às costas
Justos e pecadores carregam sua respectiva cruz

Introdução

No cumprimento de nossa devoção do Primeiro Sábado, tendo em vista a Festa da Exaltação da Santa Cruz celebrada no dia 14 de setembro, meditaremos o 4º Mistério Doloroso: Nosso Senhor carrega sua Cruz até o Calvário.

Jesus não recusa a cruz, abraça-a até com amor, sendo ela o altar destinado para que Ele consuma o sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. A partir de então, essa mesma cruz passou a ser o símbolo da sua vitória sobre a morte e o pecado, o sinal de glória de todos aqueles que seguem o Cordeiro de Deus ao longo da história humana.

Jesus carregando a Cruz. Igreja Cristo dos Milagres de Lima, Perú

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Oração Preparatória

Ó Virgem Santíssima de Fátima, nossa Mãe e Corredentora que acompanhastes com indizível desvelo materno a via dolorosa de vosso Divino Filho rumo ao Calvário, alcançai-nos as graças necessárias para bem realizarmos essa meditação e dela colhermos todos os frutos para a nossa santificação, compreendendo o precioso valor do instrumento de sacrifício de Jesus, símbolo de glória e vida eterna para todos nós.

Amém

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A Eucaristia, eixo da piedade católica

No blog dos Arautos do Evangelho da Colômbia* encontrei um escrito maravilhoso sobre o Santíssimo Sacramento e quero compartilhar aqui com todos

Pe. Rafael Ramón Ibarguren Schindler**, EP

O texto reproduz trechos de uma conferência de um declarado adorador, o Professor Plínio Corrêa de Oliveira. Já que a matéria apresenta um grande interesse, reproduzo trechos significativos.

1. No início, estão referidos os três aspectos do mistério eucarístico: sacrifício, presença e alimento: “A Missa é a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, no qual Nosso Senhor Jesus Cristo ofereceu-se como vítima expiatória por todos os homens; Ele, o Homem Deus, Inocente, em sua natureza humana passou pelo castigo que Adão nos mereceu, e resgatou a todos os homens.

No momento em que o sacerdote pronuncia as palavras da Consagração, a hóstia é consagrada, transubstanciando-se no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Da renovação deste sacrifício do Divino Redentor resulta um dom inestimável: sua visita às nossas almas”.

2. Em seguida, o documento prossegue com esta ideia tão consoladora: Ver ao Senhor em pessoa, tocar a orla do seu manto e ouvir sua voz… é menos que comungar: Se Ele estivesse sensivelmente presente – está realmente presente -, e eu pudesse ver, por exemplo, um pequeno movimento de sua mão divina, e observar seu pulso, considerando que ali pulsa o Sagrado Coração de Jesus, dado que a pulsação do Coração é refletida nessas veias! Dessas pulsações divinas vive tudo o que tem vida na ordem espiritual das coisas. Que respeito!

Se eu conseguisse, também, tocar a borda de seu manto como aquela mulher que se curou ao tocá-lo! E se pudesse com esse ato alcançar, em um momento, o grau de santidade que eu gostaria de obter, não seria natural que me alegrasse completamente?

Recordo as palavras de um salmo, que me parecem uma beleza: “…se regozijarão meus ossos humilhados”. Um indivíduo está reduzido a ossos, a uma caveira; pode estar em uma situação mais baixa? Mas Nosso Senhor diz uma palavra e a caveira se refaz, ressuscita de júbilo!

As palavras dEle são palavras da vida eterna. Ouvir uma palavra de Jesus! Ele está na Hóstia; eu não vejo, mas creio.

Quando chega a hora de comungar, Nosso Senhor estará realmente em mim. Será que Ele não vai me dizer nada? Sim, no interior de nossas almas, Ele dirá:

– Meu filho, quando dois estão juntos, um sente ao outro. Será que quando Eu estou em ti não sentes nada? Ouça a linguagem silenciosa da minha presença, que não te fala aos ouvidos.

Às vezes o silêncio diz de uma pessoa o que não chega a expressar a fisionomia, as maneiras, ou o modo de ser ou a palavra. “Meu filho, tu sabes isso? Preste atenção em mim! Eu estou em você e a graça fala com você. Você não sente nada?”.

Assim é o inefável da Sagrada Eucaristia que a alma católica sente. Posso dizer que sinto algo que comunica luz, amor, força e permanece em nossa alma, embora para muitos lhes pareça ser passageiro.

Graças à Sagrada Comunhão, a inteligência se torna mais perspicaz para os assuntos da Fé; enquanto o amor se abre mais a todas as virtudes; em relação à fortaleza, fica mais disposta a fazer todos os sacrifícios e a vontade de lutar se multiplica por si mesma.

3. Em seguida, segue uma explicação de como a Missa repercute no céu. “Essa é uma hora de grande solenidade, para a qual devemos colocar a alma em uma posição de veneração, de gravidade e de seriedade.

A medida em que se aproxima a hora da Consagração, eu não posso deixar de pensar no que deve estar se passando de tão solene, festivo, vitorioso e grandioso no Céu nesse momento. Que alegria e que glória para Deus! Ainda que o Céu e a Terra tivessem sido criados para que houvesse apenas uma só Missa, tudo estava justificado.

Missa Solene na Basílica de Nossa Senhora do Rosário dos Arautos do Evangelho

Ao começar uma Missa, não estarão os anjos -para empregar uma linguagem antropomórfica- preparando-se solenemente? Imagino que nesse momento o Céu deva estar como um tribunal quando se vai realizar um ato mais sério e mais augusto que a coroação de um rei.

Pouco depois o tintinar dos sinos, termina a Consagração e o Céu reluzirá de glória”.

4. A Santa Missa não só ecoa no céu; causa terror ao demônio e repercute no inferno: “Estas considerações ficariam incompletas se eu não agregasse o seguinte: Ainda que de certo modo toda a criação tenha sido considerada sumariamente, falta algo: o inferno. Quando se aproxima a Consagração, eu imagino que o inferno fica aterrorizado, deve rugir de ódio e gostaria de fazer explodir o mundo para evitar a celebração de uma Missa. Ele sabe a derrota renovada que sofrerá”.

Estas ideias, que são parte da Fé e que se expressam em piedosas meditações, nos falam do caráter militante da celebração eucarística: mistério celebrado na terra que repercute não apenas no céu, mas também -e quanto!- nos infernos.

Assunção, junho de 2018

Por Padre Rafael Ibarguren EP

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*http://caballerosdelavirgen.org/espiritualidad/la-eucaristia-eje-de-la-piedad-catolica#

**Conselheiro de Honra da Federação Mundial das Obras Eucarísticas e da Igreja.

Veja também: Vinte e quatro horas eucarísticas

Páscoa do Senhor – Vitória de Cristo sobre a morte

“Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda minha afeição” (Mt 17, 5). Seria suficiente esse amor infinito do Pai pelo seu Unigênito para que operasse sua Ressurreição, porém, ademais concorreu para tal o brilho da justiça divina, segundo São Tomás de Aquino, “à qual é próprio exaltar aqueles que se humilham por causa de Deus, conforme diz Lucas (1, 52): ‘Precipitou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes’. E uma vez que Cristo, por causa do amor e da obediência a Deus, se rebaixou até a morte de Cruz, convinha que fosse exaltado por Deus até a gloriosa Ressurreição”.(1)

Tomados de adoração, uma vez mais foi-nos possível acompanhar liturgicamente ao longo da Semana da Paixão o quanto a morte teve uma aparente vitória no Calvário. Todos que por ali passavam podiam constatar a “derrota” de quem tanto poder havia manifestado não só nas incontáveis curas por Ele operadas, como também em seu caminhar sobre as águas ou nas duas vezes que multiplicou os pães.

Os mares e os ventos Lhe obedeciam, e até mesmo os demônios eram, por sua determinação, desalojados e expulsos.

Aquele mesmo que tantos milagres prodigalizara havia sido crucificado entre dois ladrões e, diante de seus extremos sofrimentos, “os que passavam O injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: ‘Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!’ Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam d’Ele: ‘Ele salvou a outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é Rei de Israel, desça agora da Cruz e nós creremos n’Ele! Confiou em Deus, Deus O livre agora, se O ama, porque Ele disse: Eu sou o Filho de Deus!’” (Mt 27, 39-43).

Porém, a maneira pela qual fora removida a pedra do sepulcro e o desaparecimento dos guardas eram, de si, uma prova sensível do quanto havia sido derrotada a morte, conforme o próprio São Paulo comenta: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (I Cor 15, 55). Os fatos subsequentes tornaram ainda mais patente a triunfante Ressurreição de Cristo e, por isso, a Liturgia Eucarística canta, sucessivamente, nos Prefácios da Páscoa: “Morrendo, destruiu a morte, e, ressurgindo, deu-nos a vida”;(2) “Nossa morte foi redimida pela sua e na sua Ressurreição ressurgiu a vida para todos”;(3) “Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente”;(4) “E, destruindo a morte, garantiu-nos a vida em plenitude”.(5)

Constituem essas frases uma sequência de afirmações que proclamam a vitória de Cristo não só sobre sua própria Morte, como também sobre a nossa. Ele é a Cabeça do Corpo Místico e, tendo ressuscitado, trará necessariamente a nossa respectiva ressurreição, pois esta nos é garantida pela presença d’Ele no Céu, apesar de estarmos, por ora, submetidos ao império da morte. De maneira paradoxal, aquele sepulcro aberto com violência a partir de seu interior, deu à morte um significado oposto, e passou ela a ser o símbolo da entrada na vida, pois Cristo quis “destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb 2, 14), e assim libertar os que “estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2, 15).

São Paulo tem sua alma transbordante de alegria em face da realidade da Ressurreição de Cristo e nela encontramos nosso triunfo sobre a morte, tal qual ele próprio nos diz: “ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram! Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão” (I Cor 15, 20-22).

Na Ressurreição vemos, ademais, realizada por Jesus, a profecia que Ele mesmo fizera pouco antes de sua Paixão: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). De fato, o cumprimento exato dessa profecia se iniciou durante os quarenta dias de retiro no deserto, e teve continuidade passo a passo ao longo de sua vida pública ao expulsar os demônios que pelo caminho encontrava, chegando ao ápice em sua Paixão: “Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela Cruz” (Col 2, 15).

Posteriormente, não só o demônio, mas o próprio mundo foi derrotado: inúmeros pagãos passaram a se converter e muitos entregaram a própria vida para defender a Cruz, animados pelas luzes da Ressurreição do Salvador. Em função dela, passaram a ser acolhidos no Corpo Místico todos os batizados que, revitalizados pela graça e sem deixarem de estar incluídos no mundo, tornaram perpétuo o triunfo de Cristo: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Trata-se, portanto, de uma vitória ininterrupta, mantendo seu rútilo fulgor tal qual no dia de sua Ressurreição, sem uma fímbria sequer de diminuição. Com a Redenção, Cristo lacrou as portas do seio de Abraão depois de ter libertado, de seu interior, as almas que ali aguardavam a entrada no gozo da glória eterna.

(Excerto do livro “O inédito sobre os Evangelhos” Vol I, de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP – Comentário ao Evangelho do Domingo de Páscoa.)

 NOTAS:

1) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.53, a.1.
2) RITO DA MISSA. Oração Eucarística: Prefácio da Páscoa, I. In: MISSAL ROMANO.
Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada
pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus,
2004, p.421.
3) Idem, Prefácio da Páscoa, II, p.422.
4) Idem, Prefácio da Páscoa, III, p.423.
5) Idem, Prefácio da Páscoa, IV, p.424.

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