O que disse Nossa Senhora em Fátima na Terceira Aparição?

Um dos mais inéditos e marcantes fatos de nossos tempos deu-se no começo do século XX, na região montanhosa portuguesa da Serra de Aire. Ali, três inocentes pastorinhos foram escolhidos por Deus para transmitir ao mundo uma importante Mensagem. E foi em 13 de julho de 1917, há cem anos, que Nossa Senhora  lhes revelou o Segredo, o coração da Mensagem de Fátima1

Era uma sexta, dia em que se daria a terceira aparição de Nossa Senhora. Lúcia, até a tarde do dia anterior, estava resolvida a não comparecer à Cova da Iria, pois seu espírito infantil fora submetido a duras provas. A mãe não lhe dava crédito e a acusava de mentirosa. A isto se somou o fato de ter sido interrogada meticulosamente pelo pároco, quem a ouviu com benignidade, mas cujo veredito final soara aos ouvidos da criança como uma terrível sentença:

“Não me parece uma revelação do Céu. Quando se dão estas coisas por ordinário, Nosso Senhor manda essas almas, a quem Se comunica, dar conta do que se passa a seus confessores e párocos, e esta, ao contrário, retrai-se quanto pode. O futuro nos dirá o que havemos de pensar”.2

A tal ponto esta dúvida foi tomando o seu subconsciente que, certa noite, acordou sobressaltada, gritando. Depois, contou o que sonhara:

“Vi o demônio que, rindo-se de me ter enganado, fazia esforços por me arrastar para o inferno. Ao ver-me nas suas garras, comecei a gritar de tal forma, chamando Nossa Senhora, que acordei minha mãe, a qual me chamou, aflita, perguntando-me ou que eu tinha”.3

No dia 12 de julho, pela tarde, os primos, Jacinta e Francisco, tentaram dissuadi-la por todos os modos, mostrando-lhe ser impossível que a Senhora tivesse qualquer relação com o inferno. Ao contrário! Ela, toda cheia de luz e de paz, descia do Céu e para lá subia ao terminar as aparições. Todavia, Lucia permanecia firme em sua resolução . A Jacinta, que lhe insistia com lágrimas nos olhos para acompanhá-los até a Cova da Iria, disse:

“Olha: se a Senhora te perguntar por mim, diz-Lhe que não vou, porque tenho medo que seja o demônio”.4

Ao aproximar-se, no dia seguinte, a hora em que deviam partir, sentiu-se impelida, de repente, por uma estranha força, à qual não lhe era fácil resistir.

Foi ter com os primos e os encontrou no quarto, de joelhos, chorando e rezando, como ela mesma conta:

” – Então vocês não vão? – lhes perguntei.

” – Sem ti não nos atrevemos a ir. Anda, vem.

” – Já cá vou – lhes respondi. Então, com um semblante já alegre, partiram comigo”. 5

E as três crianças se puseram a caminho. Ao chegarem no local das Aparições, surpreenderam-se com a multidão que ali acorrera – entre duas ou três mil pessoas – para presenciar o extraordinário acontecimento.6

Segundo o sr. Marto, pai de Francisco e de Jacinta, no momento em que Nossa Senhora apareceu, uma nuvenzinha acinzentada pairou sobre a azinheira, o sol se turvou e uma aragem fresca começou a soprar, embora se estivesse no pino do verão. Entre o profundo silêncio do povo, ouvia-se um sussurro como o de uma mosca num cântaro vazio.7

“Isto não o digais a ninguém”

A Ir. Lúcia narra o que sucedeu:

“Vimos o reflexo da costumada luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

” – Vossemecê que me quer? – perguntei.

” – Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer.

” – Queria pedir-Lhe para nos dizer quem é, para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.

” – Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que quero e farei um milagre que todos hão de ver, para acreditar.”8

E foi então que Nossa Senhora lhes revelou o Segredo9, o coração da Mensagem de Fátima, ordenando-lhes ao final: “Isto não o digais a ninguém”…

O Segredo de Fátima é sem dúvida, o cerne da Mensagem que Nossa Senhora revelou à humanidade através dos três pastorinhos. Este Segredo é dividido em três partes, segundo as explicações da Ir. Lucia. São eles:

Primeira e Segunda Parte: A visão do inferno e a devoção ao Imaculado Coração de Maria;

A Ir. Lúcia faz alguns pedidos, e Nossa Senhora responde que os atenderia em até um ano. Em seguida a Virgem continuou:

” – Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes alguns sacrifícios: “Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

Segue a Ir. Lucia:

“Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo. Mergulhados em esse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes [incêndios], sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor (deveu ser ao deparar-me com esta vista que dei esse ai! que dizem ter-me ouvido). Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa.

Os pastorinhos após a visão do inferno

Assustados e como que a pedir socorro, levantamos a vista para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:

” – Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite iluminada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé”.

Terceira parte: O século dos mártires.

Segue a Ir. Lucia:

“Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse:

” – Penitência, Penitência, Penitência!”

E vimos numa luz imensa que é Deus algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho, quando lhe passam por diante um Bispo vestido de Branco; tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vários outros Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio tremulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal na mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus”.

Seguem as palavras de Nossa Senhora:

” – Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.
Quando rezais o Terço, dizei depois de cada mistério: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.

Ir. Lucia: Seguiu-se um instante de silêncio e perguntei:

” – Vossemecê não me quer mais nada?”

“– Não. Hoje não te quero mais nada”.10

Encerrou-se assim a Terceira Aparição.

Para ter o conhecimento completo da Mensagem de Fátima, sugerimos a leitura do recente livro de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP: Por fim, o meu Imaculado Coração Triunfará. Instituto Lumen Sapientiae, São Paulo, 2017.

Os pastorinhos junto à Igreja Paroquial de Fátima em 13 de julho de 1917

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1 MONS. jOÃO SCOGNAMIGLIO CLÁ DIAS, Por fim, o meu Imaculado Coração Triunfará. Instituto Lumen Sapientiae, São Paulo, 2017.
2 Irmã Lúcia. Memórias I. Segunda Memória, c.II, n.5. 13a. ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, p.85.
3 Idem, n. 6.
4 Idem, p.87.
5 Idem, p. 86-87.
6 Cf.  AYRES DA FONSECA, SJ, Luis Gonzaga. Nossa Senhora de Fátima, Aparições, culto, milagres. 5ed. Petrópolis: Vozes, 1954, p.41; WALSH, Willian Thomas. Nossa Senhora de Fátima. 2a. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1949, p.75.
7 Cf. DE MARCHI, ICM, João M. Era uma Senhora mais brilhante que o sol. 8.ed. Fátima: Missões Consolata, 1966, p.113-114; WALSH, op. cit., p. 75.
8 IRMÃ LUCIA. op. cit., Quarta Memória, c.II, n.5, p. 176.
9 IRMÃ LUCIA, op. cit. Quarta Memória, p. 177. Fica claro que o silêncio acerca do conteúdo desta parte da Mensagem foi uma iniciativa direta de Nossa Senhora, quem, ao, longo do tempo, foi autorizando sua revelação.
10 Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 176-177 (IV Memória);  interrogatório do pároco, de 14 de julho de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p 13-15;  terceira parte do segredo de Fátima (Memórias da Irmã Lúcia I, p. 213).

 

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