O primeiro Rosário da História

Quantas vezes, ao longo daquele dia de sábado, terá passado pela mente virginal de Maria a lembrança dos momentos-auge da vida de Jesus?

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP. Fundador dos Arautos do Evangelho

Soledade no Sábado Santo

“Maria vive com os olhos fixos em Cristo — comentava o Papa São João Paulo II — e guarda cada palavra sua: ‘Conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração’ (Lc 2, 19; cf. 2, 51). As recordações de Jesus, estampadas na sua alma, acompanharam-nA em cada circunstância, levando-A a percorrer novamente com o pensamento os vários momentos da sua vida junto com o Filho.

Foram estas recordações que constituíram, de certo modo, o ‘rosário’ que Ela mesma recitou constantemente nos dias da sua vida terrena.”

E, certamente, este primeiro “rosário” de Maria, meditado com os discípulos naquele Sábado Santo, fortaleceu a fé de todos, preparando-os para o grande acontecimento do dia seguinte.

Mas a ideia da Ressurreição de Jesus, apesar de ter sido com clareza profetizada por Ele, estava tão longe das cogitações dos Apóstolos, que parece mais provável Nossa Senhora não lhes ter falado a este respeito, esperando que seu próprio Filho lhes abrisse os olhos.

Muito apropriadamente, a piedade católica representa Maria, neste dia de sábado, sob a invocação de Nossa Senhora da Soledade. Ela está só, sem Jesus, chorando a sua morte. E por isto de sua fisionomia transparece profunda tristeza.

Antegozando o momento da Ressurreição

Mas, se é verdade que a dor pela morte de Jesus transpassava seu coração virginal, não é menos verdade que a certeza inabalável na Ressurreição de seu Filho o fazia palpitar de consolação e de júbilo.

No meio da incredulidade dos Apóstolos e demais discípulos, Maria era a única a ter uma Fé plena. Só Ela creu na Ressurreição. E por isso a Igreja vivia em todo o seu esplendor na alma de Maria. Ela era a Arca da Esperança do Novo Testamento, na qual estavam contidos todos os tesouros de graça da Igreja. E embora Nosso Senhor estivesse morto, vivia plenamente no coração de sua Mãe.

Nossa Senhora da Ressurreição – Seminário dos Arautos do Evangelho – Caieiras/SP

À medida que o tempo passava, Nossa Senhora já ia antegozando o momento jubiloso da Ressurreição. A tristeza cedia lugar a uma intensa alegria. Por isso — além de representar Maria de semblante triste e lacrimoso, no Sábado Santo, sob a invocação de Nossa Senhora da Soledade — não seria também legítimo representá-lA de fisionomia jubilosa, antevendo já o triunfo próximo de seu Filho?

E quase se poderia afirmar, metaforicamente, que, antes de ressuscitar no Sepulcro, Jesus já havia ressuscitado no Coração Imaculado de Maria. Por isso também se poderia dar-Lhe, nesse dia, a invocação de Nossa Senhora da Ressurreição.

Pode-se comparar este período de sábado com o tempo em que Nossa Senhora gerava o Salvador do mundo, e levantar a pergunta se é mais glorioso ter em si o Filho de Deus, ou ser a única alma inteiramente fiel no mundo, contendo em si, de certa forma, a Igreja.

Se a primeira situação é mais gloriosa, sem dúvida a segunda é mais meritória, pois Ela creu sem ver: “Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!” (Jo 21, 29), disse Jesus a Tomé.

Durante a noite, acreditou na Luz

“É durante a noite que é belo acreditar na luz”. Esta expressiva afirmação do poeta francês Edmond Rostand aplica-se com exatidão à Fé da Virgem Santíssima no Sábado Santo. Por este motivo, desde tempos muito remotos, a piedade católica tornou o sábado um dia especialmente consagrado a Nossa Senhora, para enaltecer sua Fé inabalável e recordar um dos mais belos e gloriosos momentos de sua vida, em que só Ela sustentou toda a Igreja.

Devemos pedir a Maria, em nossas dificuldades e perplexidades, essa Fé demonstrada por Ela naquele momento tão trágico, e por isso tão belo. Segundo paternais advertências do próprio Papa João Paulo II, vão baixando sobre o mundo as trevas da descristianização. É nessa noite do neo-paganismo de nossos dias que é glorioso, para cada um de nós, acreditar na Ressurreição, ou seja, no “triunfo do Imaculado Coração de Maria”♦

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