Quinta-feira Santa – Nunca devemos rejeitar uma graça

Pedro disse: “Senhor, Tu me lavas os pés?” Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”. Disse-Lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se Eu não te lavar, não terás parte comigo”. Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”. Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos” (Jo 13 6-10).

Ao ver Cristo Se aproximar para lavar-lhe os pés, São Pedro, sempre impulsivo, teve um verdadeiro sobressalto. Como os demais Apóstolos, não podia compreender naquele momento a transcendência do gesto do Divino Mestre. Mas Nosso Senhor lhe adverte que se não o permitisse, não teria parte com Ele.

Podemos imaginar o que deve ter sido sentir os próprios pés sendo lavados pela Segunda Pessoa da Santíssima Trindade! Não terá ele experimentado também, à medida que as sagradas e adorabilíssimas mãos de Jesus retiravam a poeira do caminho, que todos os passos dados por esses pés, que não foram bons, ou foram quiçá pecaminosos, estavam sendo perdoados e uma alvura divina penetrava em sua alma?

E nós? Se quisermos ter parte com Jesus, devemos pedir, como São Pedro, a graça de sermos purificados por inteiro, ou seja, que o preciosíssimo Sangue do Redentor limpe todas as nossas faltas. Pois, como sublinha Maldonado, “na pessoa de Pedro, o Senhor fala a todo o gênero humano, e nos ensina que ninguém terá parte com Ele se não se deixar lavar por Ele. Com efeito, quem poderá salvar-se sem ser lavado e purificado pelo Sangue de Jesus?”. (1)

Ora, o exemplo do Príncipe dos Apóstolos ensina-nos também que, para participarmos do Divino Banquete, precisamos ter em relação a Jesus uma atitude de total aceitação, nunca rejeitando alguma graça que Ele queira nos conceder, por mais inexplicável, ou até imerecida, que ela nos possa parecer.

A esse respeito, sublinha um piedoso comentarista: “Quão importante é não se opor à vontade de Deus nem à dos superiores que O representam, mesmo sob o falacioso pretexto da piedade ou da humildade! São Basílio tira desta passagem do Evangelho duas regras de conduta cheias de sabedoria: desagrada a Deus quem se opõe à sua vontade, mesmo se o faz com boa intenção; deve-se aceitar com a maior docilidade possível tudo quanto quer o Senhor”.(2) Santo Agostinho assim comenta o diálogo entre o Salvador e Pedro: “‘Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás’. Assustado pela profundidade daquela ação do Senhor, não permite que se lhe faça aquilo cujo motivo ignora; não pode ver, não pode resistir a Cristo humilhado aos seus pés. ‘Tu nunca me lavarás os pés!’.

“‘Se Eu não te lavar, não terás parte comigo’. Então, angustiado entre o amor e o temor, e mais inquieto por ser negado por Cristo do que por vê-Lo assim humilhado, replicou: ‘Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça’. Se assim ameaças, aqui tens meus membros e, além de não tirar o mais baixo, entrego-Te o mais alto”.(3)

Quanto ao simbolismo do gesto de lavar a cabeça e as mãos, lembremos ainda o comentário do grande São Bernardo: “Está lavado quem não tem pecados graves; aquele cuja cabeça, isto é, sua intenção, e cujas mãos, ou seja, sua conduta e suas obras, estão limpas”.(4)

(Excerto do livro “O inédito sobre os Evangelhos” VII, de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP – Comentário ao Evangelho da Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor.)

NOTAS:

1) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Juan. Madrid: BAC, 1954, v.III, p.758.
2) THIRIET, Julien. Explication des Évangiles des dimanches. Hong-Kong: Société des Missions Étrangères, 1940, t.II, p.301.
3) SANTO AGOSTINHO, op. cit., Tractatus LVI, n.2, p.256-257.
4) SÃO BERNARDO. Sermones de Tiempo. En la Cena del Señor, n.4. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1953, v.I, p.496.

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